Praticando a não-violência a cada real gasto, sempre que possível

O princípio básico do consumo consciente sugere que a forma com que cada cidadão usa o seu dinheiro pode direcionar a forma com que o mercado opera. É simples: se você compra roupas de uma certa marca, você estimula a produção e a cadeia de fornecimento de roupas daquela marca. E isso vale para qualquer produto ou serviço que você for capaz de imaginar.

Entretanto, o consumidor brasileiro ainda se preocupa muito pouco com as potenciais implicações éticas das suas compras. Ser um consumidor mais responsável não é muito difícil. Basta um mínimo de pesquisa e, acima de tudo, honestidade consigo mesmo.

Em linhas gerais, devemos fazer a nós mesmos umas poucas perguntas muito simples para averiguar quais as possíveis implicações éticas em adquirir um bem ou serviço. Uma das perguntas mais importantes é: “Alguém foi submetido a violência para que eu pudesse adquirir isso?”

Seduzidos pelo preço, pela aparência e pelo desejo de tornar nossas vidas mais fáceis e prazerosas, tendemos a nos abster de tal responsabilidade. Mas não podemos pular esse passo nas nossas decisões de compra. Pular esse passo significa resignar-se à ignorância e recusar-se a tentar corrigir nossos hábitos de consumo de forma a torná-los mais coerentes com os nossos próprios princípios e valores. Uma verdadeira covardia.

Ao passar displicentemente no caixa, confirmando tal recusa, tomamos decisões que podem efetivamente financiar a violência. Neste momento — o momento da compra — o cidadão inocente e bem intencionado torna-se aquele que violenta. Aquele que bate, escraviza, devasta, confina, explora e mata. Seja uma peça de roupa produzida com trabalho escravo, um pedaço de carne produzido com crueldade a animais ou um móvel produzido a partir de desmatamento ilegal, o consumidor torna-se o mandante do crime.

Evidentemente, o consumo ético e não-violento pode encontrar limitações. Um consumidor consciente poderia, por exemplo, buscar e não encontrar informações confiáveis sobre determinada cadeia produtiva. Em outro caso, alguém poderia alegar que é difícil escolher porque todas as empresas fazem algo de errado. No entanto, tais limitações não nos eximem da responsabilidade de fazer o possível e praticável para minimizar a nossa contribuição financeira para processos injustos ou violentos.

Se de fato pretendemos construir um mundo menos violento nas próximas décadas, não basta evitar guerras entre nações e resolver pacificamente conflitos pessoais. Precisamos também — para ontem — promover a não-violência através das relações de mercado, escolhendo conscientemente o que comemos, o que vestimos e a quem compramos.

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2 comentários
  1. Guilherme:

    Penso que o Consumo Consciente individual (pessoa física) é uma possibilidade válida de representarmos nossos valores e de incorporarmos no cotidiano decisões políticas ao realizarmos nossas escolhas de o quê comprar.
    Indo além, a meu ver, é muito cômodo para as grandes organizações (governos, inclusive) transferir esta responsabilidade para ‘nós’ – consumidores do final do tubo. Neste sentido, reforçarmos o discurso de que só não existem mais produtos e serviços orientados à sustentabilidade, pois o consumidor ainda não atingiu o estágio civilizatório necessário para fazer suas escolhas de modo a mudar as ofertas.
    Gostaria de incluir o foco para os GRANDES compradores, isto é, quem realmente pode fazer a diferença quando falamos de CONSUMO. Assim, penso eu, que no momento em que Grandes Corporações e Governos (principalmente porque vivemos uma Indústria de Transformação) estimularem sua cadeia e seus fornecedores com critérios rigorosos de dignidade e segurança no trabalho, saúde e meio ambiente, seremos capazes de falar em um Consumo orientado à sustentabilidade. Do contrário, na minha percepção, só empurrar a ideia do consumo responsável para a pessoa física é o que Slavoj Zizek diz a respeito da reciclagem: assistir a um jogo de futebol em casa e acreditar piamente que sua torcida no sofá está de fato afetando e mudando o resultado do jogo… Ou seja, a cada latinha que acertamos no lixo é um: VAI PLANETA! Quando na verdade, penso, devemos entrar em campo! Indo além, mudar o jogo, as regras, a bola…
    Sei da importância de elevarmos o nível da qualidade do consumo e principalmente revermos sua necessidade, contudo, sinto ser fundamental avançarmos nos dois lados.

    ps. não desconsidero que realizar reciclagem seja um primeiro passo em um processo amplo, gradual e lento e traga profundos efeitos formadores no sujeito – aproxima de seu consumo, traz a relação com seu lixo, amplia sua visão da cadeia (para onde vai, dá onde vem)… mas no final do dia, vamos combinar, é bem superficial…

  2. Guilherme Carvalho disse:

    Leeward, obrigado pelo comentário!! Eu concordo que a responsabilidade não pode ser transferida para a nossa ponta da cadeia. A responsabilidade é compartilhada ao longo da cadeia, e até mesmo pelo governo, que está no “cluster” dessa cadeia, mas fora dela.

    Concordo também com o papel dos grandes compradores. Redes de varejo, por exemplo, têm um poder gigante – para o bem e para o mal – sobre os seus fornecedores, inclusive produtores agrícolas. O problema é que, tenho percebido, a responsabilidade empresarial no Brasil é algo frequentemente esquizofrênico, muito esquizofrênico. A empresa anuncia que está obtendo matérias-primas de fontes 100% sustentáveis, que está priorizando o pequeno agricultor na sua política de compras, que está reciclando 90% do seu lixo, e se você parar pra olhar eles estão fazendo nada ou muito pouco.

    A ineficácia do judiciário brasileiro e a pouca vigilância dos consumidores, comparadas às dos EUA por exemplo, faz com que esse tipo de falácia role até em publicações das empresas, e se por acaso a empresa for questionada ou desmascarada, a possibilidade de responsabilização legal e multas realmente importantes é muito pequena.

    Então as corporações dizem “estamos fazendo”, “não estamos transferindo a responsabilidade para o consumidor”, “estamos puxando a responsabilidade de ser mais sustentáveis para nós”; mas, na verdade, não estarão fazendo nada se cada um de nós não puxar a sua parte da responsabilidade e for muito, muito atento e EXIGENTE E HONESTO CONSIGO MESMO.

    Isso sem contar que, pasmem, 2/3 da economia do mundo acontecesse no B2B, business to business, e não tem consumidor nenhum envolvido. Aí é mais fácil ainda ser insustentável se a nossa ponta – do consumidor – não for muito vigilante.

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