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Desde a semana passada, vejo pessoas compartilhando no Facebook a entrevista do professor de Geografia da USP Ricardo Augusto Felício para o Jô Soares. Geralmente, prefiro não opinar nos murais alheios, porém não pude ficar quieta diante dessa entrevista.

Abaixo reproduzo diálogo (com algumas edições para ficar mais “blogável”) no mural de um dos inúmeros amigos que está espalhando esse vídeo por aí.

Eu: “Essa entrevista é bizarra! Dei uma busca no Google sobre esse professor e as únicas referências que aparecem sobre ele são justamente essa entrevista. Onde a Globo foi chamar esse cara e por que resolveu chamá-lo? Além de ficar rindo o tempo inteiro, a argumentação dele é muito fraca! Estou aberta a ouvir bons discursos questionando a origem antropogênica das mudanças climáticas, mas ele não fala nada! Além disso, o Jô Soares mistura 2012 com aquecimento global, propagando ainda mais o catastrofismo que pessoas que trabalham seriamente com esse assunto tentam evitar. Ele pergunta num certo momento se a Amazônia é o pulmão do mundo, o que mostra claramente que ele não sabe nada sobre o assunto e que nem pautado antes da entrevista foi. Minha conclusão é que ele foi chamado no programa porque o Jô Soares queria fazer piada sobre o aquecimento global. Não dá pra levar esse professor a sério em nenhum momento. Lê esse artigo, é bem interessante”

Ele: “Concordo que o cara não argumentou muito. Mas sei que há vários outros cientistas que questionam as evidências científicas sobre o aquecimento global. Como não entendo nada de ciência climática, para mim é muito difícil tomar uma posição no debate. Eu prefiro ter um pé atrás em relação aos dois lados. Já com relação às implicações do debate em termos de política internacional eu já entendo um pouco melhor e acho que muitas vezes, o argumento do aquecimento global é usado para prejudicar o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos.”

Eu: “Lê esse artigo que eu te mandei, ele fala justamente sobre o fato de que não adianta os cientistas falarem que as mudanças climáticas não são uma questão de fé (acreditar ou não), mas sim de observação científica e evidências porque as pessoas só vão acreditar nisso se estiver de acordo com a visão de mundo que elas têm (como qualquer outro assunto). A grande maioria da comunidade científica não contesta o fato de que as mudanças climáticas estão acontecendo e tem influência das atividades humanas, porém a grande mídia dá o mesmo espaço para os dois lados como se houvesse um equilíbrio entre eles e como se esse debate não tivesse sido superado. A maior parte dos ditos “céticos” são financiados pela indústria de carvão e petróleo. É uma questão muito complexa, há muitas incertezas, mas elas estão principalmente relacionadas à magnitude dos impactos, não sobre se está acontecendo ou não. Por exemplo, o derretimento do gelo do Ártico está acontecendo até mais rápido do que o cenário mais pessimista. Sobre a política internacional que eu acompanho há um tempo já, as negociações estão praticamente paradas desde então porque os países desenvolvidos que tiveram a maior contribuição histórica na emissão de gases de efeito estufa não querem assumir compromissos ambiciosos de redução de emissões. No caso dos EUA (maior emissor histórico e que nunca ratificou o Protocolo de Quioto), por exemplo, eles dizem que só vão assumir compromisso se a China (que é o maior emissor atual) também assumir o mesmo compromisso que eles. Isso, obviamente, não tem cabimento até porque a Convenção de Clima tem como um de seus princípios, o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, ou seja, todos os países têm que fazer algo para combater as mudanças climáticas, mas de acordo com as suas respectivas responsabilidades e capacidades e também respeitando seu direito ao desenvolvimento (mas que esse desenvolvimento não aconteça com uma economia baseada em combustíveis fósseis e desmatamento e que os países desenvolvidos financiem essa transição para outro modelo de desenvolvimento dos outros países). Depois de Copenhague, foi criado um Fundo Verde Climático para os países desenvolvidos financiarem a adaptação e a mitigação dos países em desenvolvimento, mas até hoje não existe dinheiro porque os ricos ficam estabelecendo uma série de condicionalidades para colocarem o dinheiro na mesa e, do outro lado, há a cautela de que esse dinheiro não seja desviado de outros fundos de desenvolvimento e ajuda internacional e que não seja o Banco Mundial a administrar esse fundo. Não gosto desse argumento de que o aquecimento global é usado para prejudicar o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos. É muito simplista e parece que voltamos para Estocolmo em 1972 quando o Brasil disse que todas as indústrias poluidoras poderiam vir soltar fumaça no Brasil.”

Ainda sobre esse assunto, recomendo a leitura desse post no blog Entre Colchetes do jornalista Claudio Angelo.

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2 comentários
  1. Pois eu compartilho dessa indignação! E também fui buscar o Currículo Lattes dele pra saber quem é esse professor. O que eu fiz no facebook? Compartilhei o Lattes desse Ricardo e o do Carlos Nobre junto com uma entrevista dele no Roda Viva. Se o problema é tempo de estudo/observação e cientificidade, o Carlos Nobre ganha disparado, tanto pelo Lattes, quanto pelo Roda Viva!

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