Elders+Youngers – Debate #1: Pessoas, lucro e o meio ambiente

Há poucos dias, os The Elders – grupo de líderes independentes que trabalham juntos pela promoção da paz e dos direitos humanos, fundado por Nelson Mandela em 2007 – deram início a uma série de debates rumo à Rio+20, Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável que acontece em junho no Rio de Janeiro. O projeto se chama Elders+Youngers, e ao longo das próximas semanas Desmond Tutu, Gro Brundtland, Mary Robinson e Fernando Henrique Cardoso debaterão 8 temas do desenvolvimento sustentável com um grupo de jovens – tudo está sendo apresentado no site da iniciativa.

Como as conversas acontecem em inglês, publicarei aqui no blog versões traduzidas dos textos iniciais para cada um dos temas em  pauta, conforme forem sendo lançados! O tema da primeira semana já gerou muito debate e comentários, e os textos iniciais foram escritos por mim e Gro Brundtland – seguem abaixo:

Pessoas, lucro e o meio ambiente – é possível equilibrar?

Pedro Telles:
É desafiador, mas muito importante, iniciar este diálogo com uma pergunta que se refere a um assunto central nos debates sobre desenvolvimento sustentável: como garantir prosperidade econômica, preservação ambiental e justiça social ao mesmo tempo?

Acredito que só conseguiremos alcançar uma verdadeira prosperidade econômica quando nossa economia existir para servir ao povo e preservar o meio ambiente, e não o contrário.

Isto se tornou mais evidente do que nunca com a crise econômica global que enfrentamos desde 2008, somada às muitas crises sociais, políticas e ambientais que ela contribuiu para agravar. Indo direto ao ponto, o que temos hoje é uma economia que simplesmente não tem sido capaz de garantir que todos nós fiquemos acima de um piso de proteção social básico e abaixo de um teto de limites ambientais seguro.

Qualquer solução que encontremos deve incluir diálogo, cooperação e transparência entre os mais diversos atores da sociedade. Todos que estiverem dispostos a liderar a mudança precisam ter ao seu alcance recursos apropriados e eficientes para fazê-lo, e para atingir um equilíbrio adequado é necessário colocar a justiça social e ambiental no topo da agenda.

Mudanças estão longe do impossível: muitos grupos, comunidades e organizações já estão trabalhando em soluções concretas para diversos dos problemas que enfrentamos, mas tais soluções ainda precisam crescer em apoio e visibilidade. Além disso, devem vir acompanhadas de uma profunda reflexão sobre ética e valores em nossa sociedade – em última instância, é aqui que reside a crise mais grave de nossos tempos.

Precisamos de algo novo. E parece que o desenvolvimento sustentável não é apenas a meta, mas também o caminho para chegar lá.

Enquanto isso, muitas perguntas ficam para o debate, e seria ótimo a opinião dos Elders e Youngers a seu respeito:

• Com tantas boas idéias e centenas de convenções e acordos já assinados, por que é tão difícil fazer mudanças efetivas se tornarem realidade?
• Quais são os principais gargalos para implementação das mudanças necessárias, a nível internacional, nacional e sub-nacional?
• Na transição para o desenvolvimento sustentável, onde cada um dos setores da sociedade está falhando?
• Que exemplos de iniciativas inspiradoras e bem-sucedidas podem ser apontadas, lideradas por governos e pela sociedade civil?

Gro Brundtland:
Caro Pedro,

Obrigada por dar início à discussão desta semana – você nos deu muito o que pensar.

Seu texto me leva de volta à elaboração do prefácio de “Nosso Futuro Comum”, o relatório entregue como parte dos resutados da comissão da ONU que dirigi em 1987. Naquela época, escrevi que nós nunca chegaríamos ao sucesso “se não formos capazes de traduzir nossas palavras para uma linguagem que possa atingir os corações e mentes de pessoas jovens e idosas”. Pedro, você está apelando para valores humanos, sociais – e essa é, em última instância, a mensagem do desenvolvimento sustentável.

Vejo que suas perguntas já provocaram reações interessantes. Eu gostaria de focar em um dos seus pontos em particular, no qual você pergunta onde cada setor da sociedade está falhando. Essa é a pergunta certa, porque você pede que pensemos sobre cada um dos setores da sociedade. Tal forma de pensar é ainda muito rara, e certamente fundamental para alcançar o equilíbrio que você descreve.

Quando o Secretário-Geral da ONU na época, Javier Pérez de Cuéllar, tentava me convencer a participar da comissão da ONU que mencionei acima, e que ajudou a colocar o tema do desenvolvimento sustentável na agenda global, ele usou o seguinte argumento: “Você é a única Ministra do Meio Ambiente que chegou ao cargo de Primeira-ministra”. E esse argumento me convenceu.

Hoje me parece claro que o argumento de Javier trazia consigo a semente do desenvolvimento sustentável. De fato, partindo dessa lógica e tirando dela uma conclusão, percebe-se que cada ministro – seja da economia, saúde, infra-estrutura, energia, ou habitação – é também um ministro do desenvolvimento sustentável. Voltando à sua pergunta, eu sugeriria que trata-se não tanto de encontrar onde cada setor da sociedade está falhando, e sim de perguntar se os governos são capazes de liderar todos os setores sob tal perspectiva. O mesmo pode ser dito a nível internacional.

Isso leva-me a uma pergunta para todos vocês. Em suas próprias palavras, Pedro: “O desenvolvimento sustentável não é apenas a meta, mas também o caminho para chegar lá”. Essa é uma excelente observação que se relaciona com o ponto anterior: o desenvolvimento sustentável é tanto uma aspiração de todos nós, quanto um processo pelo qual cada setor, à sua própria maneira, deve pasar.

Sendo assim, estamos nós, como uma comunidade global, movendo-nos para mais perto ou mais longe do desenvolvimento sustentável?

Eu ficaria feliz em ouvir seus pensamentos, e os de todos que estão lendo.

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