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Elders+Youngers

No segundo debate do projeto Elders+Youngers, o Nobel da Paz Desmond Tutu dá início ao diálogo sobre uma questão-chave: Seria o desenvolvimento sustentável um luxo que vai além do que podemos arcar?

É comum ouvir de políticos, muitas vezes influenciados por atores com interesses privados, argumentos como “não temos recursos o suficiente para investir em sustentabilidade” ou “estamos em crise e a prioridade agora é outra”. Será?

Reproduzo abaixo um resumo traduzido das principais idéias apresentadas por Desmond Tutu e os jovens envolvidos com o projeto Elders+Youngers sobre a questão (a versão na íntegra, em inglês, pode ser encontrada aqui):

Desmond Tutu, afirmando que os problemas sociais e ambientais que enfrentamos são mais do que evidentes, levanta um questionamento importante – por que nossos líderes não dão prioridade a soluções de longo prazo relacionadas ao desenvolvimento sustentável, à justiça e à prosperidade? Em seguida, afirma a importância de repensar o caminho que temos trilhado e reavaliar a definição que damos a “bem-estar”.

Aproveitando um gancho deixado por Desmond Tutu, Sara Svensson fala sobre a realidade da Suécia, seu país de origem e um dos lugares onde os padrões de produção e consumo excedem em muito alguns dos nossos limites planetários – realidade partilhada por diversas nações. Os subsídios oferecidos a atividades insustentáveis, como a produção de combustíveis fósseis que contribuem para o aquecimento global, são um grave problema. Isso se soma ao fato de produtos e serviços sustentáveis serem muitas vezes vendidos como ítens de luxo, bem mais caros do que poderiam custar, enquanto tentativas de consertar ou reutilizar produtos usados acabam abandonadas pelo fato da compra de um produto novo ser sempre apresentada como a saída mais “inteligente”. Sendo assim, o que devemos fazer para garantir que alternativas sustentáveis sejam as mais interessantes para todos?

Em minha resposta a Desmond Tutu e Sara, apresento alguns dos fatores que vejo como sendo impeditivos para uma mudança nesse cenário, principalmente na esfera política. Em primeiro lugar, temos o enorme desafio trazido pelo fato das eleições acontecerem a cada 4 ou 5 anos – como motivar políticos e partidos a se dedicarem ao longo prazo, se eles querem resultados de curto prazo para agradar o povo e serem reeleitos? Soma-se a isso a corrupção, problema observado do país mais rico ao país mais pobre, e provavelmente o melhor exemplo do interesse provado se sobrepondo ao bem coletivo. E, como um terceiro exemplo que pode ser citado, há o importante debate sobre o financiamento privado de campanhas eleitorais: é possível um candidato receber milhões de alguns poucos doadores, e ainda manter autonomia para agir de forma incisiva em nome do bem público depois de ser eleito? Quão justo e democrático é ter um debate político desigual devido ao fato de alguns candidatos receberem muito mais dinheiro de doadores específicos, que agem em prol de seu benefício próprio? O caminho a ser trilhado rumo ao desenvolvolvimento sustentável no Brasil e em muitos outros países ainda é longo, e questões como o Código Florestal e a usina de Belo Monte apenas evidenciam isso.

Por fim, Esther Agbarakwe levanta um ponto importante: nos países em desenvolvimento, como fazer todos abraçarem a causa a sustentabilidade, enquanto muitos ainda enfrentam enormes dificuldades para suprir até mesmo necessidades básicas de saúde e alimentação? Esse é um desafio enorme, que passa por encontrar soluções sustentáveis que beneficiem as camadas mais pobres e vulneráveis da sociedade – como, por exemplo, o apoio a pequenos agricultores e à agricultura familiar (um material muito interessante a respeito disso esta sendo produzido pela campanha Cresça, da Oxfam), e a construção de espaços que permitam maior participação da sociedade civil nas decisões e ações do governo.

Ou seja, o desenvolvimento sustentável não é “um luxo com o qual não podemos arcar”. Na realidade, ele é a única alternativa real que temos para superar os diversos problemas sociais e ambientais que já estamos enfrentando. E sua viabilidade já está mais do que comprovada por inúmeros estudos e práticas existentes – o que precisamos agora, e o quanto antes, é de ação em larga escala.

Clique aqui para ler na íntegra o debate sintetizado acima, e aqui para ler o início do terceiro debate da iniciativa Elders+Youngers sobre “Como criar a mudança que queremos?”

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Há poucos dias, os The Elders – grupo de líderes independentes que trabalham juntos pela promoção da paz e dos direitos humanos, fundado por Nelson Mandela em 2007 – deram início a uma série de debates rumo à Rio+20, Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável que acontece em junho no Rio de Janeiro. O projeto se chama Elders+Youngers, e ao longo das próximas semanas Desmond Tutu, Gro Brundtland, Mary Robinson e Fernando Henrique Cardoso debaterão 8 temas do desenvolvimento sustentável com um grupo de jovens – tudo está sendo apresentado no site da iniciativa.

Como as conversas acontecem em inglês, publicarei aqui no blog versões traduzidas dos textos iniciais para cada um dos temas em  pauta, conforme forem sendo lançados! O tema da primeira semana já gerou muito debate e comentários, e os textos iniciais foram escritos por mim e Gro Brundtland – seguem abaixo:

Pessoas, lucro e o meio ambiente – é possível equilibrar?

Pedro Telles:
É desafiador, mas muito importante, iniciar este diálogo com uma pergunta que se refere a um assunto central nos debates sobre desenvolvimento sustentável: como garantir prosperidade econômica, preservação ambiental e justiça social ao mesmo tempo?

Acredito que só conseguiremos alcançar uma verdadeira prosperidade econômica quando nossa economia existir para servir ao povo e preservar o meio ambiente, e não o contrário.

Isto se tornou mais evidente do que nunca com a crise econômica global que enfrentamos desde 2008, somada às muitas crises sociais, políticas e ambientais que ela contribuiu para agravar. Indo direto ao ponto, o que temos hoje é uma economia que simplesmente não tem sido capaz de garantir que todos nós fiquemos acima de um piso de proteção social básico e abaixo de um teto de limites ambientais seguro.

Qualquer solução que encontremos deve incluir diálogo, cooperação e transparência entre os mais diversos atores da sociedade. Todos que estiverem dispostos a liderar a mudança precisam ter ao seu alcance recursos apropriados e eficientes para fazê-lo, e para atingir um equilíbrio adequado é necessário colocar a justiça social e ambiental no topo da agenda.

Mudanças estão longe do impossível: muitos grupos, comunidades e organizações já estão trabalhando em soluções concretas para diversos dos problemas que enfrentamos, mas tais soluções ainda precisam crescer em apoio e visibilidade. Além disso, devem vir acompanhadas de uma profunda reflexão sobre ética e valores em nossa sociedade – em última instância, é aqui que reside a crise mais grave de nossos tempos.

Precisamos de algo novo. E parece que o desenvolvimento sustentável não é apenas a meta, mas também o caminho para chegar lá.

Enquanto isso, muitas perguntas ficam para o debate, e seria ótimo a opinião dos Elders e Youngers a seu respeito:

• Com tantas boas idéias e centenas de convenções e acordos já assinados, por que é tão difícil fazer mudanças efetivas se tornarem realidade?
• Quais são os principais gargalos para implementação das mudanças necessárias, a nível internacional, nacional e sub-nacional?
• Na transição para o desenvolvimento sustentável, onde cada um dos setores da sociedade está falhando?
• Que exemplos de iniciativas inspiradoras e bem-sucedidas podem ser apontadas, lideradas por governos e pela sociedade civil?

Gro Brundtland:
Caro Pedro,

Obrigada por dar início à discussão desta semana – você nos deu muito o que pensar.

Seu texto me leva de volta à elaboração do prefácio de “Nosso Futuro Comum”, o relatório entregue como parte dos resutados da comissão da ONU que dirigi em 1987. Naquela época, escrevi que nós nunca chegaríamos ao sucesso “se não formos capazes de traduzir nossas palavras para uma linguagem que possa atingir os corações e mentes de pessoas jovens e idosas”. Pedro, você está apelando para valores humanos, sociais – e essa é, em última instância, a mensagem do desenvolvimento sustentável.

Vejo que suas perguntas já provocaram reações interessantes. Eu gostaria de focar em um dos seus pontos em particular, no qual você pergunta onde cada setor da sociedade está falhando. Essa é a pergunta certa, porque você pede que pensemos sobre cada um dos setores da sociedade. Tal forma de pensar é ainda muito rara, e certamente fundamental para alcançar o equilíbrio que você descreve.

Quando o Secretário-Geral da ONU na época, Javier Pérez de Cuéllar, tentava me convencer a participar da comissão da ONU que mencionei acima, e que ajudou a colocar o tema do desenvolvimento sustentável na agenda global, ele usou o seguinte argumento: “Você é a única Ministra do Meio Ambiente que chegou ao cargo de Primeira-ministra”. E esse argumento me convenceu.

Hoje me parece claro que o argumento de Javier trazia consigo a semente do desenvolvimento sustentável. De fato, partindo dessa lógica e tirando dela uma conclusão, percebe-se que cada ministro – seja da economia, saúde, infra-estrutura, energia, ou habitação – é também um ministro do desenvolvimento sustentável. Voltando à sua pergunta, eu sugeriria que trata-se não tanto de encontrar onde cada setor da sociedade está falhando, e sim de perguntar se os governos são capazes de liderar todos os setores sob tal perspectiva. O mesmo pode ser dito a nível internacional.

Isso leva-me a uma pergunta para todos vocês. Em suas próprias palavras, Pedro: “O desenvolvimento sustentável não é apenas a meta, mas também o caminho para chegar lá”. Essa é uma excelente observação que se relaciona com o ponto anterior: o desenvolvimento sustentável é tanto uma aspiração de todos nós, quanto um processo pelo qual cada setor, à sua própria maneira, deve pasar.

Sendo assim, estamos nós, como uma comunidade global, movendo-nos para mais perto ou mais longe do desenvolvimento sustentável?

Eu ficaria feliz em ouvir seus pensamentos, e os de todos que estão lendo.

Olá pessoal,

Este é um espaço para mentes jovens de todas as idades trocarem idéias e propostas sobre como construir agora e para todos um mundo verdadeiramente justo, inclusivo e sustentável.

Textos próprios, notícias, imagens, vídeos, links… Tem espaço para tudo! Contanto que vá além da teoria e também fale da transformação na prática, e que ajude a trazer “pra dentro da kombi” gente nova que ainda não está muito envolvida ou engajada.

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