Primeiro eles se indignaram e agora buscam soluções. O movimento 15-M não afrouxa. Muitas de suas ações acontecem longe dos holofotes. Milhares de iniciativas das assembleias cidadãs brotam nos bairros e povoados, tornando-se uma rede de apoio, em tempos de desmantelamento do Estado de bem-estar.

A reportagem é de Joseba Elola, publicada no jornal El País, 05-05-2012. A tradução é do Cepat.

Era meados de julho, pleno verão em Madri, e a assembleia de San Blas se reunia, todas as segundas-feiras, às seis da tarde. A assembleia de San Blas é apenas uma dessas, do 15-M, que permanecem ativas – o movimento decidiu descentralizar-se e mudar sua ação para os bairros, assim que nasceu.

Cerca de quarenta pessoas se reuniram na Praça Branca para abordar a criação de um banco do tempo, um sistema de trocas de serviços entre os vizinhos, sem necessidade de uma moeda. Israel, informático, colocou em ação este sistema no mesmo dia. Ele precisava arrumar umas cortinas em sua casa. Na assembleia estava Flori, de 56 anos, ex-costureira. Eles entraram num acordo: ela precisava de alguém que arrumasse o seu computador.

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Em 2010, se você falasse em energia fotovoltaica para algum especialista no tema provavelmente ele diria – “Cara, o Brasil está longe disso, não temos quase nada e estamos longe de ter!” Nesse mesmo ano, comecei a estudar a fundo o assunto e em todos os trabalhos de faculdade usava a temática como contexto.

Para me embasar fui visitar uma das poucas empresas instaladas no Brasil, uma filial japonesa, e entrevistar sua gerente de vendas. Ela explicou que em nosso país apenas existiram alguns programas do Governo Federal como o PRODEEM (Programa de Desenvolvimento Energético dos Estados e Municípios), que acabaram se incorporando ao Programa Luz para Todos, entre outras poucas iniciativas voltadas mais para eletrificação rural e para pequenas comunidades isoladas. Cética e com suas vendas se limitando a apenas Iluminação e Bombeamento de Água, ela me disse que Energia Fotovoltaica era um mercado em que muitos apostavam em uns 20 anos para deslanchar, mas, que no entanto, existia um professor “maluco” do Sul que afirmava que em dois anos nosso país iria experimentar um boom.

Dois anos se passaram e embora ainda não tivéssemos o tal boom, nosso mercado deu grandes passos, e no contexto internacional o solar avançou de forma impressionante, conforme ilustrado a seguir:

Figura 1- Capacidade instalada global de solar FV (GW). Fonte: PSR

O maior consumidor de energia solar é disparado a Europa, correspondendo a cerca de 75% do crescimento global de 2011. O país líder em usar a tecnologia é a Alemanha, mas por outro lado, por volta de 70% da produção mundial dos painéis hoje é predominantemente da China e Taiwan. Observam-se, também, mercados como Portugal, Espanha, Austrália, África do Sul, EUA e agora a própria China vêm se desenvolvendo fortemente na sua capacidade instalada.

Outro fator que representa o relevante crescimento desse mercado é a redução dos preços dos painéis, provocado por uma sobreoferta agravada pela crise econômica e o corte de subsídios, como por exemplo, na Espanha. Essa redução obrigou as empresas do setor a reduzirem os seus custos, que somados aos altos subsídios que o governo chinês concedeu às suas fábricas, provocou uma quebradeira nas empresas norte-americanas.

Figura 2: Redução do preço dos módulos FV. Fonte:PSR

Aqui, no Brasil, nos últimos meses, a inserção de energia solar fotovoltaica obteve bastante destaque na mídia. O Governo do Rio de Janeiro, através do ex-ministro Carlos Minc, publicou a Carta do Sol, um documento técnico e conciso produzido pela UFRJ que analisa as perspectivas desta fonte no Brasil, assim como seu desenvolvimento tecnológico a nível mundial, custos e formas de incentivos apropriados, e proposição de caminhos para a sua promoção no País. O Ministério do Desenvolvimento e da Indústria teve também um papel importante fazendo declarações de que “é a hora do solar”, indo na contramão de outros Ministérios que ainda tem dificuldade de quebrar o paradigma de uma matriz energética do século passado. Do outro lado, o setor empresarial se organizou, associações como a COGEN e a ABINEE agregaram diversas empresas e começaram a pressionar o governo, encaminhando propostas importantes como os leilões de energia solar, seguindo o exemplo bem sucedido da energia eólica. A MPX, por exemplo, deu um grande passo ao fazer a primeira usina no Ceará com capacidade de 1MW. Por fim, a sociedade também contribuiu, colocando cada vez mais a temática das energias limpas como fundamental para o desenvolvimento sustentável do país.

Água mole, pedra dura, tanto bate, até que fura. Em agosto de 2011, a ANEEL explicitou seu interesse na energia solar, incluindo esta fonte na lista de temas estratégicos para o setor elétrico e publicando uma chamada pública para projetos de P&D visando “Arranjos técnicos e comerciais para inserção da geração solar FV na matriz energética brasileira”. Mais de 100 empresas demonstraram interesse em submeter projetos neste tema, dos quais 17 foram aprovados.

Mas foi em abril deste ano, que a ANEEL deu o grande passo para desenvolver a energia solar. A partir da Audiência Pública n⁰42/2011, foi aprovada a Regulamentação que estimula e organiza a expansão iminente da geração FV conectada à rede de distribuição, criando um sistema de compensação, no qual instalações com produção maior que o consumo em certo mês (o excesso sendo injetado na rede) ficariam com o crédito de energia (kWh) que poderá ser abatido do consumo da conta de luz dos meses seguintes.

Na verdade, 2012 é um marco para o mercado no Brasil. Alguns estádios, que serão usados na Copa, receberão a tecnologia em suas coberturas. Muitas empresas chinesas, europeias e americanas já estão abrindo seus escritórios em São Paulo e no Rio. Portugueses e espanhóis estão fugindo da crise, vindo para o Brasil, querendo desenvolver negócios e trabalhar na área. E agora com a nova regulamentação, milhões de residências poderão receber o sistema e milhares de empregos poderão ser criados, e é isso que discutirei no meu próximo artigo, por que esse mercado tem um potencial tão grande de geração de empregos? Por que a mão de obra é o principal desafio para de fato a energia solar ser um sucesso em nosso País?

Imagine uma cidade com excelente infraestrutura cicloviária, rede de internet sem fio espalhada pelos mais variados cantos e bibliotecas públicas de excelente qualidade. Seus museus e espaços culturais revelam para quem quiser ver uma belíssima história. Essa mesma cidade está cheia de praças e parques e os moradores costumam se reunir nelas durante a noite para acompanhar uma roda de capoeira, bater papo, comer um lanche ou tomar um sorvete tranquilamente.

Talvez você pense que essa cidade é um sonho ou em algum país europeu, mas acredite: estamos falando de Rio Branco, a capital do Acre. Então, em vez de fazer a famosa piadinha do “mas o Acre existe?!”,tenha a certeza de que SIM, ele existe e tem muito a nos ensinar.

Já falei em outro blog sobre como o Acre (e os acreanos) lutaram para serem reconhecidos como povo brasileiro. Portanto, se existe alguém nesse país que tem orgulho de ser brasileiro, pode ter certeza que é o acreano. O estado, além de apaixonante e acolhedor, carrega a história dos movimentos ambientalistas liderados por pessoas guerreiras como Chico Mendes, que pagaram com a vida pela preservação das florestas amazônicas. Prova disso é que 88% da vegetação amazônica original do Acre continuam intactas.

Ainda assim, muito da vegetação foi e tem sido derrubada para garantir que a população local consiga viver da agricultura e dos próprios recursos florestais. Por estar em uma região altamente protegida e cercada por duas fronteiras, parece difícil para acreano ter muitas expectativas de como sobreviver. Muita gente vive lá de cargos públicos, afinal, não há empresas ou indústrias para empregar a população. Em novembro a capital Rio Branco inaugurou o primeiro shopping do Estado, que gerou três mil empregos na cidade, amplamente comemorados.

Por isso mesmo, o governo federal anterior e atual tem investido alto nesse estado com gestões petistas há mais de 12 anos. O foco é o turismo sustentável, para garantir que as famílias que vivem na floresta, principalmente com a produção da borracha (aquela, defendida por Chico Mendes), continuem lá sem ter que migrar para a cidade.

Xapuri, terra de Chico Mendes, é talvez o maior exemplo disso. Uma fábrica estatal de preservativos compra a borracha dos seringueiros e depois distribui as camisinhas gratuitamente nos postos de saúde de todo o Acre. A pousada ecológica Seringal Cachoeira foi construída pelo governo e entregue ao seringueiros do local berço das lutas de Chico Mendes para receber os visitantes. Em abril desse ano, lá foi inaugurado o maior circuito de arvorismo da Amazônia.

Já a capital acreana, ao longo de dez anos foi totalmente revitalizada. Um grande matagal com um córrego que cruzava toda a região central da cidade se transformou em um parque linear. É o Parque da Maternidade, com excelentes ciclovias em toda a sua dimensão, quadras, campos, pistas de skate, bares, restaurantes, museus, biblioteca e ponto de acesso a internet. A ocupação desse espaço é apaixonante.

As principais ruas e avenidas também são ocupadas por ciclofaixas em toda a sua extensão. O acostamento da rodovia no perímetro urbano é totalmente sinalizado como “Faixa preferencial de pedestres e ciclistas”. Se não bastasse isso, o Floresta Digital leva internet sem fio gratuita a toda a população e a passarela Joaquim Macedo, maior símbolo de desenvolvimento da cidade, é exclusiva para pedestres e ciclistas.

Todos esses investimentos fez com que a autoestima do acreano fosse lá em cima. É difícil você ver alguém que não esteja satisfeito por lá. Sem contar a simpatia da população local, que por ser diversa – uma linda mistura de índios, ribeirinhos e nordestinos, faz com que exista muito respeito pelas diferenças e pela diversidade por lá. Não e a toa que Rio Branco tem uma das maiores paradas gays do Brasil!

Se ficou surpreso, saiba quem tem muito mais. Chegar ao Acre é caro e cansativo, mas vale a viagem, que promete surpresas e muita aprendizagem sobre como pensar cidades mais agradáveis para as pessoas.

A bicicleta, enquanto meio de transporte, é utilizada há algumas boas décadas e, econômica
e ambientalmente, ainda é a melhor opção para locomoções de até 7 km. Não é função desse
artigo aprofundar-se na história da bicicleta ou em questões políticas de transporte não-
motorizado e mobilidade, mas sim, proporcionar um quadro geral da situação desse modelo
de transporte em ambientes urbanos – mais precisamente na Região Metropolitana de São Paulo.

Na Região Metropolitana de São Paulo, temos um total de 38,1 milhões de viagens por dia, dos
quais 14,48 milhões são por modos não-motorizados; sendo que aproximadamente 304mil
viagens são de bicicleta. Das viagens feitas por bicicleta, 57% delas são feitas devido à curta
distância entre os destinos e 22% devido ao alto custo das alternativas de condução*.

Em um ambiente onde a velocidade média de um automóvel é de 17 km/h, do transporte
coletivo 13 km/h e do pedestre, cerca de 3 km/h; o uso da bicicleta torna-se bastante viável,
uma vez que sua velocidade média – para um usuário regular que não quer se cansar – é de
15 km/h. Considerando o alto nível de despesas relacionadas ao carro como combustível,
estacionamento e IPVA, ponderando o custo crescente das tarifas do transporte público, sem
mencionar o cansaço físico e emocional de encontrar-se preso no trânsito e/ou dentro de um
ônibus lotado, é fácil compreender o aumento de mais de 100% no uso da magrela como meio
de transporte nos últimos 10 anos.

A preocupação pelo modo como o cidadão se relaciona com sua cidade, tem sido o grande
fator de mudança das políticas de mobilidade adotadas em outros países, tanto da América do
Sul, como na Europa e Estados Unidos. Observou-se nesses lugares que o fator tempo não era
o mais importante, mas sim o fator percepção. Alguém que, ao se deslocar dentro da cidade,
não tenha a possibilidade de perceber as pessoas, o comércio e as áreas verdes à sua volta,
simplesmente transita do ponto A ao ponto B fechada em seu mundo. Essa pessoa não se relaciona com a cidade, pois passa por ela sem perceber o que ela lhe oferece.

Por isso vemos em cidades como Amsterdam e, mais recentemente, Nova York uma grande
preocupação com calçadas para pedestres, compartilhamento das vias com automóveis,
ônibus e bicicletas além da redução da velocidade máxima nessas vias. Semáforos para pedestres com tempo suficiente e de sobra para uma travessia segura e calma, placas de sinalização para pedestres e ciclistas separadas das placas de sinalização para automóveis são apenas dois exemplos de pequenas medidas adotadas que agregam valor e muita segurança para o transporte não-motorizado. Com isso, há o aumento gradual desse tipo de viagem,
proporcionando um melhor relacionamento das pessoas com sua cidade.

Pensando nesses exemplos e no crescimento do número de ciclistas na cidade, é impossível
não entusiasmar-se com o futuro que se constrói a diante. Uma cidade mais humana é
possível, (sendo um tanto quanto otimista) basta humanizar o meio como os habitantes se
locomovem nela.

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* Fonte; Pesquisa OD 2007 do Metrô

Por: Ricardo Mencaraglia

Há poucos dias, os The Elders – grupo de líderes independentes que trabalham juntos pela promoção da paz e dos direitos humanos, fundado por Nelson Mandela em 2007 – deram início a uma série de debates rumo à Rio+20, Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável que acontece em junho no Rio de Janeiro. O projeto se chama Elders+Youngers, e ao longo das próximas semanas Desmond Tutu, Gro Brundtland, Mary Robinson e Fernando Henrique Cardoso debaterão 8 temas do desenvolvimento sustentável com um grupo de jovens – tudo está sendo apresentado no site da iniciativa.

Como as conversas acontecem em inglês, publicarei aqui no blog versões traduzidas dos textos iniciais para cada um dos temas em  pauta, conforme forem sendo lançados! O tema da primeira semana já gerou muito debate e comentários, e os textos iniciais foram escritos por mim e Gro Brundtland – seguem abaixo:

Pessoas, lucro e o meio ambiente – é possível equilibrar?

Pedro Telles:
É desafiador, mas muito importante, iniciar este diálogo com uma pergunta que se refere a um assunto central nos debates sobre desenvolvimento sustentável: como garantir prosperidade econômica, preservação ambiental e justiça social ao mesmo tempo?

Acredito que só conseguiremos alcançar uma verdadeira prosperidade econômica quando nossa economia existir para servir ao povo e preservar o meio ambiente, e não o contrário.

Isto se tornou mais evidente do que nunca com a crise econômica global que enfrentamos desde 2008, somada às muitas crises sociais, políticas e ambientais que ela contribuiu para agravar. Indo direto ao ponto, o que temos hoje é uma economia que simplesmente não tem sido capaz de garantir que todos nós fiquemos acima de um piso de proteção social básico e abaixo de um teto de limites ambientais seguro.

Qualquer solução que encontremos deve incluir diálogo, cooperação e transparência entre os mais diversos atores da sociedade. Todos que estiverem dispostos a liderar a mudança precisam ter ao seu alcance recursos apropriados e eficientes para fazê-lo, e para atingir um equilíbrio adequado é necessário colocar a justiça social e ambiental no topo da agenda.

Mudanças estão longe do impossível: muitos grupos, comunidades e organizações já estão trabalhando em soluções concretas para diversos dos problemas que enfrentamos, mas tais soluções ainda precisam crescer em apoio e visibilidade. Além disso, devem vir acompanhadas de uma profunda reflexão sobre ética e valores em nossa sociedade – em última instância, é aqui que reside a crise mais grave de nossos tempos.

Precisamos de algo novo. E parece que o desenvolvimento sustentável não é apenas a meta, mas também o caminho para chegar lá.

Enquanto isso, muitas perguntas ficam para o debate, e seria ótimo a opinião dos Elders e Youngers a seu respeito:

• Com tantas boas idéias e centenas de convenções e acordos já assinados, por que é tão difícil fazer mudanças efetivas se tornarem realidade?
• Quais são os principais gargalos para implementação das mudanças necessárias, a nível internacional, nacional e sub-nacional?
• Na transição para o desenvolvimento sustentável, onde cada um dos setores da sociedade está falhando?
• Que exemplos de iniciativas inspiradoras e bem-sucedidas podem ser apontadas, lideradas por governos e pela sociedade civil?

Gro Brundtland:
Caro Pedro,

Obrigada por dar início à discussão desta semana – você nos deu muito o que pensar.

Seu texto me leva de volta à elaboração do prefácio de “Nosso Futuro Comum”, o relatório entregue como parte dos resutados da comissão da ONU que dirigi em 1987. Naquela época, escrevi que nós nunca chegaríamos ao sucesso “se não formos capazes de traduzir nossas palavras para uma linguagem que possa atingir os corações e mentes de pessoas jovens e idosas”. Pedro, você está apelando para valores humanos, sociais – e essa é, em última instância, a mensagem do desenvolvimento sustentável.

Vejo que suas perguntas já provocaram reações interessantes. Eu gostaria de focar em um dos seus pontos em particular, no qual você pergunta onde cada setor da sociedade está falhando. Essa é a pergunta certa, porque você pede que pensemos sobre cada um dos setores da sociedade. Tal forma de pensar é ainda muito rara, e certamente fundamental para alcançar o equilíbrio que você descreve.

Quando o Secretário-Geral da ONU na época, Javier Pérez de Cuéllar, tentava me convencer a participar da comissão da ONU que mencionei acima, e que ajudou a colocar o tema do desenvolvimento sustentável na agenda global, ele usou o seguinte argumento: “Você é a única Ministra do Meio Ambiente que chegou ao cargo de Primeira-ministra”. E esse argumento me convenceu.

Hoje me parece claro que o argumento de Javier trazia consigo a semente do desenvolvimento sustentável. De fato, partindo dessa lógica e tirando dela uma conclusão, percebe-se que cada ministro – seja da economia, saúde, infra-estrutura, energia, ou habitação – é também um ministro do desenvolvimento sustentável. Voltando à sua pergunta, eu sugeriria que trata-se não tanto de encontrar onde cada setor da sociedade está falhando, e sim de perguntar se os governos são capazes de liderar todos os setores sob tal perspectiva. O mesmo pode ser dito a nível internacional.

Isso leva-me a uma pergunta para todos vocês. Em suas próprias palavras, Pedro: “O desenvolvimento sustentável não é apenas a meta, mas também o caminho para chegar lá”. Essa é uma excelente observação que se relaciona com o ponto anterior: o desenvolvimento sustentável é tanto uma aspiração de todos nós, quanto um processo pelo qual cada setor, à sua própria maneira, deve pasar.

Sendo assim, estamos nós, como uma comunidade global, movendo-nos para mais perto ou mais longe do desenvolvimento sustentável?

Eu ficaria feliz em ouvir seus pensamentos, e os de todos que estão lendo.

Desde a semana passada, vejo pessoas compartilhando no Facebook a entrevista do professor de Geografia da USP Ricardo Augusto Felício para o Jô Soares. Geralmente, prefiro não opinar nos murais alheios, porém não pude ficar quieta diante dessa entrevista.

Abaixo reproduzo diálogo (com algumas edições para ficar mais “blogável”) no mural de um dos inúmeros amigos que está espalhando esse vídeo por aí.

Eu: “Essa entrevista é bizarra! Dei uma busca no Google sobre esse professor e as únicas referências que aparecem sobre ele são justamente essa entrevista. Onde a Globo foi chamar esse cara e por que resolveu chamá-lo? Além de ficar rindo o tempo inteiro, a argumentação dele é muito fraca! Estou aberta a ouvir bons discursos questionando a origem antropogênica das mudanças climáticas, mas ele não fala nada! Além disso, o Jô Soares mistura 2012 com aquecimento global, propagando ainda mais o catastrofismo que pessoas que trabalham seriamente com esse assunto tentam evitar. Ele pergunta num certo momento se a Amazônia é o pulmão do mundo, o que mostra claramente que ele não sabe nada sobre o assunto e que nem pautado antes da entrevista foi. Minha conclusão é que ele foi chamado no programa porque o Jô Soares queria fazer piada sobre o aquecimento global. Não dá pra levar esse professor a sério em nenhum momento. Lê esse artigo, é bem interessante”

Ele: “Concordo que o cara não argumentou muito. Mas sei que há vários outros cientistas que questionam as evidências científicas sobre o aquecimento global. Como não entendo nada de ciência climática, para mim é muito difícil tomar uma posição no debate. Eu prefiro ter um pé atrás em relação aos dois lados. Já com relação às implicações do debate em termos de política internacional eu já entendo um pouco melhor e acho que muitas vezes, o argumento do aquecimento global é usado para prejudicar o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos.”

Eu: “Lê esse artigo que eu te mandei, ele fala justamente sobre o fato de que não adianta os cientistas falarem que as mudanças climáticas não são uma questão de fé (acreditar ou não), mas sim de observação científica e evidências porque as pessoas só vão acreditar nisso se estiver de acordo com a visão de mundo que elas têm (como qualquer outro assunto). A grande maioria da comunidade científica não contesta o fato de que as mudanças climáticas estão acontecendo e tem influência das atividades humanas, porém a grande mídia dá o mesmo espaço para os dois lados como se houvesse um equilíbrio entre eles e como se esse debate não tivesse sido superado. A maior parte dos ditos “céticos” são financiados pela indústria de carvão e petróleo. É uma questão muito complexa, há muitas incertezas, mas elas estão principalmente relacionadas à magnitude dos impactos, não sobre se está acontecendo ou não. Por exemplo, o derretimento do gelo do Ártico está acontecendo até mais rápido do que o cenário mais pessimista. Sobre a política internacional que eu acompanho há um tempo já, as negociações estão praticamente paradas desde então porque os países desenvolvidos que tiveram a maior contribuição histórica na emissão de gases de efeito estufa não querem assumir compromissos ambiciosos de redução de emissões. No caso dos EUA (maior emissor histórico e que nunca ratificou o Protocolo de Quioto), por exemplo, eles dizem que só vão assumir compromisso se a China (que é o maior emissor atual) também assumir o mesmo compromisso que eles. Isso, obviamente, não tem cabimento até porque a Convenção de Clima tem como um de seus princípios, o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, ou seja, todos os países têm que fazer algo para combater as mudanças climáticas, mas de acordo com as suas respectivas responsabilidades e capacidades e também respeitando seu direito ao desenvolvimento (mas que esse desenvolvimento não aconteça com uma economia baseada em combustíveis fósseis e desmatamento e que os países desenvolvidos financiem essa transição para outro modelo de desenvolvimento dos outros países). Depois de Copenhague, foi criado um Fundo Verde Climático para os países desenvolvidos financiarem a adaptação e a mitigação dos países em desenvolvimento, mas até hoje não existe dinheiro porque os ricos ficam estabelecendo uma série de condicionalidades para colocarem o dinheiro na mesa e, do outro lado, há a cautela de que esse dinheiro não seja desviado de outros fundos de desenvolvimento e ajuda internacional e que não seja o Banco Mundial a administrar esse fundo. Não gosto desse argumento de que o aquecimento global é usado para prejudicar o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos. É muito simplista e parece que voltamos para Estocolmo em 1972 quando o Brasil disse que todas as indústrias poluidoras poderiam vir soltar fumaça no Brasil.”

Ainda sobre esse assunto, recomendo a leitura desse post no blog Entre Colchetes do jornalista Claudio Angelo.

O pico do petróleo, as mudanças climáticas e a grave situação de ecossistemas que sustentam a vida, tornam fundamental pensar em cidades mais resilientes e que diminuam significativamente seu impacto através de modos e estilos de vida mais sustentáveis. Neste sentido a inovação pode ser uma ferramenta chave para acelerar o processo de transformação.

Estes foram alguns dos principais temas abordados durante o evento realizado entre os dias 30 de abril e 03 de maio de 2012 em Vancouver, Canadá. Os três eixos escolhidos para abordar as discussões: Energia, Alimentos e Agricultura Sustentável e Gestão da Água.

Ao longo do encontro foram apresentadas experiências que mostram resultados concretos em prol da sustentabilidade em diferentes lugares do mundo.

Inovação para a Sustentabilidade

Mais da metade da população mundial mora em cidades e as estatísticas indicam que esta cifra só tende a aumentar. Na America Latina, por exemplo, 75% da população já é urbana.

Constata-se que as cidades e os territórios enfrentam problemas cada vez mais complexos, tais como a redução das emissões de carbono e da pegada ecológica; a escassez de água limpa, a melhora da qualidade do ar, a falta de mobilidade, o aumento da coleta seletiva e da reciclagem, a diminuição das desigualdades, a falta de moradias e a qualidade das mesmas, entre muitos outros.

Ao mesmo tempo as cidades podem se transformar na solução de muitos desses e outros problemas. É nas cidades onde as pessoas moram e têm a possibilidade de cuidar, participar e transformar a sua realidade. As cidades oferecem, também, as condições necessárias para promover a inovação, a introdução de novas ideias, processos, procedimentos, serviços ou políticas que busquem a sustentabilidade.

Nesse sentido, autoridades locais de diferentes partes do mundo têm se comprometido na busca da sustentabilidade social, ambiental, econômica, cultural e política das suas ações e de uma qualidade de vida crescente para os cidadãos.

O Evento reuniu principalmente representantes de governos locais e alguns representantes de organizações da sociedade civil.

Temas do encontro

Foram escolhidos três eixos chaves para pensar e agir no sentido da resiliência das regiões urbanas.

– Energia: No contexto do pico do petróleo, mudanças climáticas, preços crescentes e imprevisíveis da energia, as cidades estão repensando o fornecimento e o uso da energia. Reduzir a dependência do petróleo e outros combustíveis fósseis, diversificar a matriz de energia através da promoção de soluções de energia locais e descentralizadas, investindo em fontes limpas e renováveis e aumentando a eficiência e conservação energética nos edifícios, processos industriais e sistemas de transporte são algumas das soluções que ajudarão a atender a demanda de energia nas cidades e a diminuir progressivamente os impactos no meio ambiente.

Portland, nos Estados Unidos, que tem um ambicioso Plano de Ação para Mudanças Climáticas, visando reduzir as suas emissões em 40% até 2030 e 80% até 2050 está trabalhando duro para reduzir o uso de energia na área da habitação e da mobilidade urbana. Estão buscando promover e incentivar o uso do transporte público e outros meios não poluentes e ativos, tais como a bicicleta e percursos a pé. Na área de habitação, tem um interessante programa, acessível a toda a população, para facilitar a melhoria da eficiência energética nas moradias.

Mais informações: http://www.cidadessustentaveis.org.br/boas_praticas/exibir/42; http://www.cleanenergyworksoregon.org/

– Alimentos: O sistema alimentar global está enfrentando pressão por causa das mudanças climáticas, excesso de colheita e o aumento dos preços dos combustíveis. Questões como segurança alimentar, perda de terras cultiváveis, diminuição critica das populações de peixes e fome, são situações que revelam a urgência da ação em torno ao desenvolvimento de sistemas alimentares locais resiliêntes. Muitas cidades já estão trabalhando em soluções inovadoras para apoiar a agricultura local – incluindo a produção e distribuição de alimentos.

Uma experiência interessante está sendo desenvolvida em Richmond, município vizinho de Vancouver. O projeto visa incentivar a prática local de plantio, a oferta de alimentos orgânicos na cidade e aproximar cada vez mais a cultura urbana da agrícola. Trata-se de “The Sharing Farm” (a fazenda compartilhada), um empreendimento desenvolvido em um parque público, onde são oferecidos cursos para alunos de todas as idades, desde escolas até ensino tecnico, possibilidades de voluntariado para funcionários de empresas e parcelas de terra disponíveis para plantio de alimentos para consumo familiar.

Mais informações: http://www.sharingfarm.ca/

– Água: Com as mudanças climáticas produzindo eventos cada vez mais extremos, e o aumento das superfícies impermeáveis devido a continua expansão e crescimento das manchas urbanas, as cidades terão que repensar a forma como elas constroem as áreas urbanas, irão enfrentar custos crescentes devido às inundações, elevação do nível do mar e a necessidade de assegurar água potável de qualidade. Inovações em design de sistemas naturais e o desenvolvimento de infraestrutura verde podem oferecer suporte a esses desafios emergente. As cidades estão se concentrando, também, em ter sistemas de gestão de água mais eficientes que cuidam, simultaneamente, das populações humanas e dos sistemas ecológicos.

Um exemplo claro de governança metropolitana e boa gestão da água é Metro Vancouver. O prestador de serviços públicos fundamentais como saneamento básico, tratamento e abastecimento de água potável e resíduos sólidos na região Metropolitana de Vancouver.

Os planos regionais de Metro Vancouver representam uma abordagem integrada para trabalhar algumas das questões mais importantes relacionadas com a sustentabilidade de uma região metropolitana dinâmica. A abordagem integrada é fundamental para a prestação de serviços eficazes e acessíveis, e contribui para uma elevada qualidade de vida dos residentes, mantendo o rico legado natural da região. Metro Vancouver transforma essas ideias e planos em ação.

As ações locais também são importantes, os sistemas de aproveitamento de águas pluviais, biossistemas integrados de tratamento de águas residuais, sistemas de reutilização domiciliar, infraestrutura verde urbana, tais como telhados verdes, entre outros, são essenciais para buscar a resiliência das cidades.

Mais informações: http://www.metrovancouver.org/Pages/default.aspx

Essas experiências servem como inspiração para continuar plantando futuros mais sustentáveis.

Ariel Kogan

Com informações de: http://www.metrovancouver.org/2012SCI/Pages/default.aspx